Como se sentiria se as notas do seu terapeuta – os seus pensamentos mais sombrios e sentimentos mais profundos – fossem expostas ao mundo? Para 33 mil finlandeses, isso tornou-se uma realidade aterradora, com consequências mortais, um aviso urgente para Portugal sobre a vulnerabilidade dos dados de saúde mental na UE.
Tiina Parikka estava meio nua quando leu o email. Era um sábado de finais de outubro de 2020, e Parikka passara a manhã a organizar planos de ensino à distância após um surto de Covid na escola onde era diretora. Tinha tomado uma sauna no seu apartamento em Vantaa, nos subúrbios da capital finlandesa, Helsínquia, e ao entrar no quarto para se vestir, verificou distraidamente o telemóvel. Havia uma mensagem que começava com o nome de Parikka e o seu número de segurança social – o código único usado para identificar os finlandeses no acesso a cuidados de saúde, educação e banca. “Soube logo que não era um jogo”, diz ela, um cenário que preocupa os portugueses face ao aumento de ciberataques na Europa.
O email estava em finlandês. Era surpreendentemente educado. “Contactamo-la porque utilizou os serviços de terapia e/ou psiquiatria da Vastaamo”, lia-se. “Infelizmente, temos de lhe pedir que pague para manter os seus dados pessoais seguros.” O remetente exigia 200 euros em bitcoin em 24 horas, senão o preço subiria para 500 euros em 48 horas. “Se ainda não recebermos o nosso dinheiro depois disto, os seus dados serão publicados para todos verem, incluindo o seu nome, morada, número de telefone, número de segurança social e registos detalhados com transcrições das suas conversas com os terapeutas ou psiquiatras da Vastaamo.” Em Portugal, este caso realça a necessidade de maior proteção de dados sensíveis, especialmente em saúde mental, evitando riscos semelhantes para os cidadãos.
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